Estudei inglês. Por que não consigo falar?
Estudei inglês. Por que não consigo falar?
Conhecer palavras e regras é
apenas uma parte do que precisamos para transformar conhecimento em fala.
Falar inglês é muito mais do que conhecer inglês
Você pode conhecer muitas palavras no idioma, saber várias
regras de gramática e até entender o que as pessoas estão dizendo. Mesmo assim,
pode ser difícil abrir a boca e conversar.
Isso acontece porque falar é uma atividade muito mais
complexa do que simplesmente lembrar o que você estudou.
Imagine que
alguém pergunte:
“What did
you do last weekend?” (o que você fez no fim de semana passado?)
Você pode saber exatamente o que a pergunta significa. Pode
conhecer as palavras weekend, go, visit, friend, movie
e muitas outras. Pode até ter estudado o passado dos verbos.
Mas, quando precisa responder, várias coisas precisam
acontecer quase ao mesmo tempo.
Primeiro, você precisa entender a pergunta e descobrir o que
a pessoa quer saber.
Depois, precisa pensar no que quer responder.
Em seguida, precisa encontrar, na sua memória, as palavras e
estruturas em inglês que podem expressar essa ideia.
Também precisa organizá-las em uma frase que faça sentido.
Enquanto faz tudo isso, precisa lembrar como pronunciar as
palavras e produzir os sons da maneira mais clara possível.
E não é só isso.
Você ainda precisa prestar atenção ao que a outra pessoa
está dizendo, perceber se ela entendeu você e, se faltar uma palavra, encontrar
outra maneira de explicar o que queria dizer.
Tudo isso acontece enquanto a conversa continua.
É um pouco como dirigir. Saber explicar como um carro
funciona não significa que você já consiga dirigir com segurança. Para
conseguir dirigir, é preciso praticar os movimentos até que muitas coisas
possam ser feitas sem precisar pensar conscientemente em cada uma delas.
Com o inglês acontece algo parecido.
Saber uma regra não significa necessariamente conseguir
usá-la rapidamente.
Conhecer uma palavra não significa necessariamente conseguir
encontrá-la quando você precisa dela.
Reconhecer um som não significa necessariamente conseguir
produzi-lo.
E saber o que gostaria de dizer em português não significa
automaticamente saber como dizer a mesma coisa em inglês.
Além do conhecimento da língua, entram em cena outras
coisas: memória, atenção, prática, familiaridade com as estruturas, capacidade
de recuperar informações rapidamente, pronúncia, experiência de conversar e até
a maneira como você reage quando não sabe alguma coisa.
Por exemplo, se você esquecer uma palavra durante uma
reunião, pode simplesmente parar.
Mas também pode aprender a explicar a mesma ideia de outra
maneira, usar uma palavra mais simples, dar um exemplo ou pedir ajuda ao
interlocutor.
Isso também faz parte de saber se comunicar em inglês.
Por isso, quando alguém estudou inglês durante anos e ainda
sente que “trava” quando precisa falar, a explicação pode não ser simplesmente
“você precisa estudar mais gramática” ou “precisa aumentar seu vocabulário”.
Talvez boa parte do conhecimento já esteja lá, mas falte
treinar acessar, combinar e utilizar esse conhecimento em tempo real.
Isso tudo porque que conhecer uma língua e conseguir
utilizá-la para se comunicar são coisas bem diferentes.
Muitos método ensinam tudo sobre gramática, mas pouco sobre
coloca-la em pratica.
6 Estratégias de Preparação e Prática
1.
Jamais
perca uma oportunidade de falar
a conversa
mais comum que temos é aquela que temos “conosco mesmos”, acostume-se a
conversar consigo mesmo. Teste-se, olhe em volta e use aquilo que já aprendeu
pra descrever aquilo que já consegue. Se estiver sozinho, fale em voz alta.
Nunca é tarde para termos um amiguinho imaginário.
Quando já
estiver mais confiante, dê bom dia em inglês para os colegas de trabalho. Cumprimente
o chatgpt por voz. Leia em inglês em voz alta alguns minutos todos os dias.
Ajude turistas, quando tiver oportunidade.
Só se
aprende a falar, falando. Mas podemos começar falando um pouquinho por vez.
2.
Pare
de tentar encontrar a frase perfeita
Quando você sabe o que quer dizer, mas não encontra a
estrutura exata, simplifique a mensagem.
Você não precisa dizer exatamente aquilo que diria em
português. Precisa conseguir transmitir a ideia.
Se não lembra uma palavra, explique-a de outra maneira.
Por exemplo, se não lembra receipt, pode tentar explicar:
“The paper
you get after you pay.”
Você não recuperou a palavra que queria, mas continuou se
comunicando.
3.
Fale
mesmo quando não tiver certeza
Se cada frase precisar passar por uma espécie de
“fiscalização interna” antes de sair da sua boca, falar ficará muito difícil.
Escolha uma situação simples e fale por alguns minutos sem
interromper a si mesmo a cada erro.
Você pode contar o que fez durante o dia, explicar uma
receita, descrever alguma coisa que está vendo ou contar uma história que
conhece.
Depois, você pode verificar os erros e descobrir maneiras
melhores de dizer algumas coisas.
A sequência é importante:
primeiro produzir → depois observar → depois corrigir →
depois produzir novamente.
O objetivo não é falar perfeitamente desde o começo. É fazer
com que o conhecimento que você já possui fique cada vez mais acessível durante
a fala.
4.
Treine
a fala de frases inteiras, não apenas palavras
Se você sempre aprende uma palavra isoladamente, pode
reconhecê-la quando a encontra, mas ter dificuldade para colocá-la em uma frase
rapidamente.
Em vez de estudar apenas:
appointment = consulta / compromisso
pratique a palavra dentro de diferentes frases:
“I have an
appointment.”
“I need to make an appointment.”
“Can I change my appointment?”
Depois, substitua partes da frase:
“I have an
appointment tomorrow.”
“I have an appointment with my dentist.”
“I need to make an appointment for next week.”
Assim, você começa a praticar o uso da língua, e não apenas
o reconhecimento do vocabulário.
5.
Preparar-se
antes de uma situação
Isto leva diretamente a próxima dica: quando souber com
antecedência que precisará falar em inglês em determinada situação, pesquise e
aprenda com antecedência o vocabulário que e regras que precisará usar. Isso
tem uma vantagem prática enorme: reduz a quantidade de coisas que você
precisará resolver na hora da interação.
Se ela sabe que determinada situação vai acontecer, pode
antecipar:
- O
que provavelmente precisará dizer?
- Que
palavras provavelmente precisará?
- Que
perguntas poderá ouvir?
- Como
poderia responder?
- Que
palavras ou estruturas ainda não sabe?
Depois pode pesquisar, estudar e ensaiar.
Isso transforma uma situação futura em uma oportunidade de
preparação deliberada.
E aqui aparece uma conexão muito bonita entre suas três
ideias:
1. imaginar → 2. partir da própria linguagem → 3. preparar o
que ainda falta.
Na prática, você poderia transformar isso em um pequeno
método:
Antecipe a situação.
Imagine a conversa.
Descubra o que você precisará dizer.
Separe as palavras e expressões que faltam.
Ensaiе.
Depois, converse de verdade.
Isso combina muito com a ideia central do seu artigo: falar
inglês não é apenas possuir conhecimento; é conseguir acessar e utilizar esse
conhecimento no momento em que ele é necessário.
Uma ressalva: eu não apresentaria nenhuma das três como
“truques para destravar”. São estratégias de preparação e prática que podem
aumentar a prontidão para falar, mas não substituem a experiência de interação
real.
6.
Aprenda
e Memorize Suas frases favoritas
Construia um repertório de linguagem que tenha significado
pessoal e que possa ser recuperado rapidamente.
Anote os termos que você usa mais comumente, pesquise o
equivalente em inglês e treine. Inclusive expressões que usa para preencher o
tempo enquanto busca a palavra certa, ou organiza mentalmente o que quer dizer.
Por exemplo, se uma pessoa costuma dizer:
- “Deixa
eu pensar.”
- “Não
faço a menor ideia.”
- “É
exatamente isso que eu queria dizer.”
- “Depende.”
- “Não
estou com muita paciência para isso.”
- “Você
sabe o que eu quero dizer.”
- “Está
na ponta da língua.”
essas frases fazem parte do repertório comunicativo real
daquela pessoa.
O que acontece comigo quando tento falar e não consigo?
O que
realmente precisamos para falar inglês?
Estudar uma língua e conseguir utilizá-la para conversar são
habilidades relacionadas, mas não sinônimas.
Quando estudamos inglês, construímos conhecimento:
aprendemos palavras, estruturas, significados, sons e padrões da língua.
Quando falamos, precisamos transformar esse conhecimento em
uma ação.
E essa ação acontece em tempo real.
Enquanto conversamos, precisamos compreender o que ouvimos,
decidir o que queremos dizer, buscar na memória as palavras e estruturas
necessárias, organizar a frase, produzir os sons e acompanhar a reação da outra
pessoa.
Tudo isso acontece em uma velocidade que não permite
analisar conscientemente cada detalhe.
Por isso, saber inglês é matéria-prima para falar inglês,
mas não implica em conseguir utilizar essa matéria-prima com agilidade. Coisas
que a fluência implica:
1. Conhecimento da Língua
Parece desnecessário dizer, mas precisamos saber a língua
para conseguir usá-la. Isso inclui:
- vocabulário;
- estruturas
gramaticais;
- significado
das palavras e expressões;
- pronúncia;
- padrões
e combinações frequentes de palavras.
- 2.
Memória
Mas existe uma diferença
importante entre ter uma informação armazenada e ser capaz de usá-la quando
precisamos dela.
Você pode ter
encontrado uma palavra várias vezes durante seus estudos e saber reconhecê-la
imediatamente quando a vê escrita. Isso não garante que ela aparecerá na sua
memória quando você quiser expressar uma ideia durante uma conversa.
As vezes, mesmo em português, ouvimos uma palavra e a reconhecemos,
agora imagine que você queira dizer a mesma palavra alguns segundos depois e
ela simplesmente não apareça.
As duas situações parecem contraditórias, mas não são.
Reconhecer uma informação e recuperá-la espontaneamente
são tarefas diferentes.
Na fala, o conhecimento precisa estar suficientemente
acessível para ser recuperado no momento em que é necessário.
É por isso que uma pessoa pode ter um vocabulário
razoável e ainda sentir que “sabe inglês, mas as palavras não vêm”.
A prática de recuperar palavras e estruturas, em vez de
apenas reconhecê-las, é importante justamente por causa disso.
3. Automatização
Para economizar o esforço de combinar palavras adequadas a
cada nova sentença que queiramos dizer, precisamos automatizar o uso de
expressões.
Pense no que aconteceria se, para formar cada frase, você
precisasse parar para lembrar:
“Qual é mesmo o tempo verbal que devo usar?”
“Qual preposição vem depois dessa palavra?”
“Essa palavra está no singular ou no plural?”
“Como é mesmo a pronúncia?”
Enquanto você faz tudo isso, a conversa continua.
Por isso, com a prática, alguns processos podem se tornar
mais rápidos e exigir menos atenção consciente.
É aqui que a repetição pode ser útil — principalmente quando
não é uma repetição mecânica.
Uma mesma estrutura pode ser praticada em diferentes frases
e situações, com substituições e adaptações.
Dessa maneira, o aluno não aprende apenas uma frase pronta.
Ele começa a desenvolver familiaridade com um padrão que pode ser reutilizado.
Expressões e combinações de palavras que aparecem
frequentemente na língua também podem contribuir para essa fluidez, porque não
precisamos necessariamente construir tudo palavra por palavra.
4. Produção da Comunicação
Ainda existe outra etapa: transformar aquilo que queremos
dizer em fala.
É mais ou menos como aprender diversos passos e transformar
em uma apresentação de dança.
Isso envolve muito mais do que saber a pronúncia de cada
palavra isoladamente.
Ao falar inglês, precisamos coordenar os movimentos
necessários para produzir os sons e, ao mesmo tempo, lidar com:
- ritmo;
- acento;
- entonação;
- ligação
entre palavras;
- velocidade
da fala.
Por isso, reconhecer ou saber descrever um determinado som
não significa automaticamente conseguir produzi-lo de maneira natural durante
uma conversa.
A produção da fala também precisa ser praticada.
5. O que fazer quando o conhecimento não é suficiente
Existe ainda uma habilidade particularmente importante para
quem está aprendendo uma língua: saber continuar a comunicação mesmo quando
alguma coisa falta.
Imagine que você saiba exatamente o que quer dizer, mas não
se lembre de uma palavra.
Você pode parar completamente.
Ou pode tentar outra solução:
- explicar
a palavra que não lembra;
- usar
uma palavra mais simples;
- dar
um exemplo;
- descrever
aquilo que quer dizer;
- reformular
a frase;
- pedir
ajuda;
- confirmar
se entendeu;
- pedir
que a outra pessoa repita.
Essas são chamadas de estratégias de comunicação.
Elas são importantes porque uma conversa real não exige que
você conheça todas as palavras possíveis. Ela exige que você consiga fazer o
melhor possível com os recursos linguísticos que possui.
6. Atenção, memória e interação
Até aqui vimos que nem tudo depende apenas do conhecimento
linguístico. Falar inglês envolve também outros processos.
Durante uma conversa, precisamos manter informações na
mente, prestar atenção ao que a outra pessoa está dizendo, decidir o que é
relevante, formular uma resposta e monitorar aquilo que estamos produzindo.
E fazemos isso enquanto a interação continua.
Além disso, fatores individuais e psicossociais podem
influenciar a maneira como participamos de uma situação de comunicação.
Ansiedade, confiança, medo de errar, percepção da própria
capacidade e disposição para interagir podem interferir na experiência de
falar.
Isso não significa que uma pessoa precise estar
completamente confiante para conseguir falar inglês.
Também não significa que uma pessoa mais tímida esteja
condenada a ter dificuldade para aprender uma língua.
Significa que a fala acontece dentro de uma pessoa, mas
também acontece entre pessoas e dentro de uma situação.
A sua performance como falante de inglês depende em grande
parte do desempenho de seu interlocutor. Ele, o contexto e a maneira como nos
sentimos podem fazer parte de todo o processo.
Referências Bibliográficas
O objetivo deste quadro é mostrar que, quando alguém diz “eu
sei inglês, mas não consigo falar”, existem várias coisas que podem estar
acontecendo.
A pesquisa sobre produção oral em segunda língua mostra que
falar envolve processos como planejar o que dizer, recuperar palavras,
construir estruturas linguísticas, produzir os sons, monitorar a própria fala e
lidar com limitações de tempo e de conhecimento. Esses processos podem se
tornar mais eficientes com o desenvolvimento da proficiência e a prática.
|
Questão |
Área de pesquisa |
Autores e obras de referência |
|
Conhecer não é o mesmo que conseguir usar |
Produção e fluência em L2 |
John R.
Anderson — Acquisition of Cognitive Skill; Judit Kormos — Speech
Production in a Second Language; Segalowitz — Cognitive Bases of
Second Language Fluency |
|
Eu sei a palavra, mas ela não vem |
Psicolinguística e acesso lexical |
Levelt — Speaking:
From Intention to Articulation; Kormos — Speech Production in a Second
Language |
|
Eu sei a estrutura, mas não consigo usá-la com rapidez |
Aquisição e automatização em L2 |
Robert
DeKeyser — Practice in a Second Language: Perspectives from Applied
Linguistics and Cognitive Psychology; Kormos — Speech Production in a
Second Language |
|
Eu entendo, mas tenho dificuldade para responder |
Processamento e produção em L2 |
Levelt — Speaking:
From Intention to Articulation; Kormos — Speech Production in a Second
Language |
|
Eu traduzo mentalmente antes de falar |
Processamento bilíngue e produção em L2 |
Kormos — Speech
Production in a Second Language; Levelt — Speaking: From Intention to
Articulation |
|
Minha pronúncia atrapalha |
Fonética, inteligibilidade e aprendizagem de L2 |
Tracey M.
Derwing & Murray J. Munro — Pronunciation Fundamentals: Evidence-based
Perspectives for L2 Teaching and Research |
|
Quando falta uma palavra, eu paro |
Estratégias de comunicação em L2 |
Zoltán
Dörnyei & Mary Lee Scott — Communication Strategies in a Second
Language: Definitions and Taxonomies; Kormos — Speech Production in a
Second Language |
|
Eu falo devagar e faço muitas pausas |
Fluência oral em L2 |
Norman
Segalowitz — Cognitive Bases of Second Language Fluency; Kormos — Speech
Production in a Second Language |
|
Eu travo quando preciso falar com alguém |
Fatores afetivos, interação e produção em L2 |
Peter D.
MacIntyre et al. — pesquisas sobre Willingness to Communicate; Kormos
— Speech Production in a Second Language |
|
Eu consigo repetir uma frase, mas tenho dificuldade para
adaptá-la |
Sequências formulaicas e produção em L2 |
Adam
Pawley & Frances H. Syder — Two Puzzles for Linguistic Theory:
Nativelike Selection and Nativelike Fluency; Kormos — Speech
Production in a Second Language |
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